Livros - From this moment on

Desta vez, uma biografia. Só p/ interromper o ciclo de ficção científica, senão fica muito massante.
Shania Twain foi uma das minhas "descobertas" na época da CMT (Country Music Television). O "sertanejo gringo". Junto com Reeba McEntire, Garth Brooks, Tracy Bird, Alan Jackson, entre outros.

Mas ao contrário de personalidades como Chaplin, Hitler, Jobs e Disney, nunca me interessei por sua vida. Nem mesmo p/ procurar notícias em tablóides. A perseguição típica de fã. Quando comecei a escutar os CDs sequer sabia pronunciar o nome direito.

Então, nos meus passeios pela livraria (porque eu não vou a livrarias com planos pré-meditados; vou p/ passear mesmo, olhar prateleira por prateleira) achei esse livro. Resolvi comprar porque foi ela quem escreveu e segundo a resenha, os podres estão lá, afinal isso faz parte da vida de todo mundo.

O que eu não esperava é que já nos 3 primeiros capítulos viessem as pedreiras quando a cantora tinha menos de 7 anos: violência doméstica, um abuso velado (por um vizinho idoso)... Usando uma abordagem mais fria, entende-se que esses são problemas que ocorrem até hoje no mundo, ainda que não devessem ser comuns nos noticiários. Mas o que me marcou foram as descrições numa voz que realmente transparece agonia ou desespero. Talvez as sessões de psico tenham aumentado meus sentidos ligados a esses problemas; talvez toda a leitura e questionamento do Blade Runner sobre empatia e sofrimento ainda estejam trabalhando na minha cabeça. O fato é que descrições "cruas", ainda que não sejam extremamente gráficas, chocam.

Para quem espera reclamações constantes sobre tablóides, esqueça. Shania Twain conta o que passou desde antes de chegar a Nashville, como as condições dos bares nos quais cantava, até a dupla traição (termo utilizado por ela mesma -- leia o livro p/ saber do que se trata caso você não tenha acompanhado as notícias na época).

Em algumas partes do livro, Shania diz que é dever de quem passou por algumas situações (está tudo lá; leia) alertar outras pessoas, comentando os sinais, os processos mentais e comportamentos envolvidos. Vários leitores rotularam isso como baboseiras psicológicas, mas acredito que esses leitores nunca estiveram numa posição de completa confusão mental e emocional aliadas a um desgaste físico.

A única dica que dou para quem quer ler biografias é: não espere muito, mas espere de tudo. Inclusive encontrar em um ídolo (no biografado, em geral) uma pessoa mais parecida com você do que seria possível imaginar.

Livro - Androides sonham com ovelhas elétricas?

Terminei de ler o livro que foi base para o filme Blade Runner.
Foi o segundo do meu ciclo de ficção científica, que espero que seja longo o suficiente pra me manter entretida. O primeiro problema que vejo é: não sei pra onde correr quando terminar de ler os clássicos. Algum autor contemporâneo desse gênero?

Como não lembro muito bem do filme (tenho o péssimo hábito de assistir filmes deitada, o que invariavelmente significa que durmo depois de uns 20 minutos) não tinha pré-concepções na cabeça. Ao meu ver, a história começa bem, com a apresentação dos personagens, mas nos últimos capítulos me pareceu degenerar p/ uma filosofia sem fim e sem sentido.

Em linhas gerais, p/ quem não conhece: o livro narra a história de Deckard, um caçador de androides num planeta Terra distópico, com uma poeira radioativa ocasionada por uma guerra (a tal Guerra Mundial Terminus). Parte dos humanos emigrou p/ Marte e ganhou um androide. Quem ficou aqui e foi afetado pela Poeira é chamado de Especial. Praticamente não há bichos "naturais": as pessoas pagam caros por "artigos genuínos" ou compram imitações elétricas. E ter um animal "natural" é sinal de prestígio. Sério. E alguns bichos são mais valorizados que outros. Inclusive existe um catálogo com preço de venda p/ cada animal conhecido (os sapos foram extintos). Também há uma religião chamada Mercerismo, com suas caixas de empatia que promovem a fusão dos seres humanos de forma que as sensações sejam divididas.

Ocorre que 8 androides fogem de Marte e um deles manda um caçador pro hospital. É aí que Deckard recebe a missão.

Ao longo do livro são apresentados alguns questionamentos ligados à realidade e à algumas emoções. É possível extrapolar -- e muito, talvez -- as perguntas feitas no livro (juntamente com as descrições dos problemas e sensações experimentados pelos personagens) p/ ideias sobre o desejo humano: enquanto na realidade, queremos escapar dela (há uma caixinha de emoções na qual você digita um código e seu cérebro é programado para o restante do dia; o Mercerismo também funciona como uma droga, à medida que as pessoas compartilham sensações boas e que a fusão com Wilbur Mercer parecer agradar ao praticante); mas quando a realidade não é "orgânica" ou "natural" sentimos falta de coisas triviais. Em alguns momentos do livro ainda há o questionamento sobre o que é estar vivo.

Após concluir a missão, os 2 ou 3 últimos capítulos parecem cortes mal feitos de filme que filosofam sobre coisas que seriam mais interessantes se abordadas dentro do contexto das ações de Deckard, Isidore e Rachael. Destaque para um questionamento originário de Isidore: os androides dependem de mim ou eu dependo dos androides? (O cara vive sozinho num prédio abandonado) Isso me remete à dependência emocional nos relacionamentos humanos, fora a óbvia dependência da tecnologia.